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O Piquete

26.04.08

Foi domingo à tarde que abandonei o piquete.

Larguei o cartaz , apertei o casaco e fui-me embora.

 

A Luísa da Contabilidade olhou-me, o Carlos das Oficinas sorriu-me, o Jorge da portaria chamou-me nomes, o Sérgio não percebeu, o Pedro gritou e eu...

fui-me embora,

 

Deixei para trás a fábrica, os patrões, o sindicato, os companheiros, a luta, a casa, a mulher e a vida.

 

Era domingo, o céu estava cinzento, (choveu na noite anterior) e não estava frio.

 

Domingo à tarde na fábrica … os arredores de coisa nenhuma, e nós à porta à espera de nada.

 

Ontem choveu, o ceu cinzento, o chão húmido e a Carla do Aprovisionamento passava canecas de café a toda a gente.

Esperámos no parque de estacionamento onde ninguém estaciona, debaixo da chuva que choveu ontem à noite.

 

Acendi um cigarro que não queria e comecei uma conversa que não ouvi.

Falei com o João da Oficina como se estivesse a falar e ele respondeu-me como se ouvisse.

Os olhos dele, (vazios e molhados como se tivesse chovido ontem) e eu;

E eu,

Eu olho os pinheiros por trás do parque de estacionamento, por trás da fábrica e para lado nenhum.

 

Ontem esteve cá a SIC.

Ontem esteve cá a televisão e foi diferente.

Foi como o primeiro dia,

Como se tivéssemos acabado de chegar, ainda com raiva, espanto e indignação.

Foi pouco tempo.

 

Deixo cair o cigarro no chão molhado e a Sónia de não sei de onde oferece me não sei o quê e eu agradeço.

 

É o décimo dia de piquete; continuamos à porta da fábrica para não deixar que entrem pessoas que não vão aparecer, para que não roubem as máquinas que ninguém quer.

 

Velhas, remendadas e obsoletas,

Guardamo-las para que ninguém as leve.

Porque são nossas, porque não temos mais nada … porque não temos mais nada para fazer.

 

O Vasco pergunta se eu já dormi, e eu digo que sim porque é mais fácil do que pensar se dormi ou não...

Quem sabe se dormi ou não?!

 

O que eu sei é que tenho o blusão encharcado, os pés molhados e estou cansado...

Cansado de estar num parque de estacionamento à espera de coisas que não acontecem.

 

Acendo outro cigarro para disfarçar a tosse...

Acendo outro cigarro e...

Lembro-me

Lembro-me dos dias que trabalhei na fábrica, durante seis anos, das seis da manhã até às oito da noite.

 

Lembro-me do meu lugar na linha. Touca na cabeça, bibe e luvas.

 

Das seis às oito da noite

 

Todos os dias. Durante seis anos, todos os dias, mesmo ao lado da Rita loira e gira... alta, loira e boa...

Simpática

Espero nunca mais vê-la na vida.

 

Aliás, espero nunca mais ver este sítio na puta da vida.

Porque estive aqui das seis às oito da noite, durante seis anos, ao lado da Rita cavalona e já estou farto.

Olho para  a fábrica, os pinheiros, o parque de estacionamento e os meus colegas... a guardar este inferno das seis às oito e tenho pena.

 

Tenho pena de mim.

Tenho pena do tempo que aqui estive.

Tenho pena de cá ter estado.

Tenho pena de cá estar

 

E foi assim

Num domingo à tarde

Que larguei o piquete e fui-me embora.

Porque

Na verdade...

 

Não ter nada é melhor que ter isto.

 

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